Voltas

Ouvi dizer por aí que se as coisas dão errado no final, você precisa mudar a forma como começa. Muita gente tem mania de não mudar o caminho e reclamar porque tudo deu errado, de novo. Levando o conselho pro nível “relacionamento”, eu tentei vários métodos diferentes… não bastando apenas trocar de namorado.

Ora, eu me achava muito inteligente. Não poderia perder tempo repetindo erros. Crescer é mudar, amadurecer ideias! Daí mudava tudo mesmo… mudei de método, de pessoa, de perfil, de identidade, de cabelo. Pra dar certo! Só dá pra descobrir tentando, né? E tudo que deu errado uma única vez, absolutamente tudo, virou proibido. O nível de insanidade dessa ideia é inenarrável. Mas ok, eu me perdoo. Não é fácil fazer dar certo. A cobrança da felicidade faz a gente tomar decisões absurdas mesmo…

De método em método, meu método final – digo “final” porque depois do último, não tinha pra onde mudar mais, me zerei – era manter contato mínimo, me afetar o mínimo, mudar minha vida o mínimo. Bati o martelo que relacionamento ideal é cada um no seu canto. Ninguém é dono da cabeça de ninguém, se ele for adepto a monogamia tá tudo certo. Escrevendo até parece o mundo perfeito dos relacionamentos entre indivíduos modernos, só que não.

E comum ouvir que seu par tem que te dar espaço pra você ter sua individualidade, ter seu tempo, seu momento com seus amigos. Eu elevei isso ao nível extremo – onde namorado era igual aquele cachorro que a gente ama, mas vive sujo, então não pode entrar em casa. Fui amor de final de semana. Curtia todos os dias juntos como se fossem os últimos. Dava tudo de mim que podia, e era perfeito até virar as costas. Sim, com toda certeza, era perfeito. De costas eu separava os dois mundos. Minha casa, minha vida, minhas escolhas, meu estilo, minhas decisões e ninguém, NINGUÉM, NIN-GUÉM podia meter o bedelho nisso.

Sim, loucura. Ou não. Acredito que tem gente que viveria assim numa boa. Mas eu aprendi que, pra mim, não é normal não ser afetado pelo outro, por mais agradável que seja. Este não é um texto que anula todos os momentos felizes, leves e simples que tive. Não anula a sorte de conhecer alguém que, além de ser um homem maravilhoso em TUDO, não quis me mudar. Mas as experiências me fizeram entender que não era eu. E o pior… eu que me meti nessa. Eu que quis assim, então eu que estraguei tudo, do início ao fim. Mas pelo menos eu estraguei tentando, então não vou me punir por isso.

“Então quem é você?” Eu me pergunto. Ele deve se perguntar. Eu ainda não sei e não sei se vou saber um dia. No momento eu acredito que mudar, se deixar afetar, sair da zona de conforto, tem mais a ver com relacionamento saudável do que ser aquela ponte quebrada. Partindo do princípio que a outra pessoa é alguém confiável e que os sentimentos dela são compatíveis com o seu, não há porque não abrir espaço. Entendi, mais tarde, que se eu não quis abrir espaço, e se mantive minha posição de “eu sou assim, e pronto” é porque eu não queria que durasse mais que o necessário. Porque a verdade é que eu não sou assim, e pronto.

Mais uma lição deste último relacionamento, que é a mais óbvia de todas – e eu me sinto a pessoa mais imbecil do século por não ter concluído isso antes: Não é porque um dia eu já namorei uma pedra que não acrescentava quase nada na minha vida, e absolutamente nada na minha casa – além de me deixar roupa pra lavar -, significa que qualquer pessoa que eu deixasse entrar na minha vida e, principalmente, na minha casa, seria um completo inútil. Desculpe não ter caído na real antes. Mas trauma é trauma, né? E este tem nome, sobrenome e cuecas demais.

Vida que segue, um brinde aos erros que serão os futuros acertos. Devagar e sempre, com sensibilidade pra ler os sinais da vida antes de entrar em um caminho sem volta. Tudo que acontecer de ruim, transformar em algo bom, mas sem esquecer da lição. E um dia vai.

Mas calma, a história não acabou ainda. Eu preciso contar como descobri que eu não sou essa pessoa que levanta muralhas. Foi quando eu me vi feliz fazendo coisas que eu odiava, só porque era necessário. Foi quando eu cedi espaço e não doeu. Quando eu me encontrei em paz com o que me assustava, bastando um abraço e alguém pra dizer: “Xiiiu, calma.” Não qualquer alguém. Alguém certo. Inevitável, inadiável. Porque se é evitável você revida, não balança, não muda de atitude, põe pra fora. Se é adiável você finge que tá bom e empurra com a barriga. Mas se não dá pra perder, você se aperta e dá um jeito de ficar.

Nada disso garante que agora vai. Só garante que depois de 5 anos sem experimentar isso, eu vou finalmente fechar os olhos e me jogar.

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